Uso futuro – Resultados PPSIG Orla do Guaíba (3 de 5)

O segundo tema da PPSIG Orla do Guaíba abordava quais os principais usos desejados para o trecho da orla compreendido entre a Usina do Gasômetro e a Vila Assunção no futuro. Os usos mais citados foram: contemplação das visuais; esportivo; bares e restaurantes; e lazer passivo. Abaixo estão os mapas de calor – usado para identificar grupos onde existe uma elevada concentração de pontos – para cada um dos quatro usos futuros mais vezes citados.

Através da análise visual dos mapas, percebe-se que os pontos marcados para o uso futuro de contemplação das visuais se concentram nas áreas próximas a Usina do Gasômetro, Parque Maurício Sirotsky Sobrinho, e Estaleiro Só. O uso esportivo se concentra na Usina do Gasômetro, Anfiteatro Pôr-do-sol, e Estaleiro Só. Os bares e restaurantes se concentram na Usina do Gasômetro e Estaleiro Só; e o lazer passivo configura faixas lineares entre a Usina do Gasômetro e o Parque Maurício Sirotsky Sobrinho, e entre o Anfiteatro Pôr-do-sol e o Sport Clube Internacional, bem como concentrações pontuais no Estaleiro Só e na Vila Assunção. Assim, entende-se que ações futuras de planejamento urbano deveriam fomentar a contemplação de visuais, o uso esportivo, a instalação de bares e restaurantes e o lazer passivo levando em consideração as áreas indicadas pelos participantes.

  • Contemplação das visuais:visuais
  • Esportivo:esportes
  • Bares e restaurantes:bares
  • Lazer passivo:lazer

Preferências – Resultados PPSIG Orla do Guaíba (2 de 5)

O primeiro tema da PPSIG Orla do Guaíba questionava sobre o lugar que ‘mais gosto’ e o que ‘menos gosto’ no trecho entre a Usina do Gasômetro e a Vila Assunção, e a indicação das principais razões. O mapa abaixo apresenta os pontos marcados como sendo lugares que ‘mais gosto’ (vermelho) e que ‘menos gosto’ (verde), e uma interpolação dos mesmos, que dá a ideia de continuidade ao conjunto de pontos. Esta visualização “dupla” permite uma comunicação visual rápida, ou seja, percebe-se mais claramente concentrações de respostas semelhantes.

A análise visual do mapa permite destacar como áreas que ‘mais gosto’ as próximas aos seguintes pontos de referência: Usina do Gasômetro, Parque Maurício Sirotsky Sobrinho, Parque Marinha do Brasil, Museu Iberê Camargo, Veleiros do Sul, e Associação dos Auditores do Estado. Ao passo que destacam-se como áreas que ‘menos gosto’ as próximas aos seguintes pontos de referência: Anfiteatro Pôr-do-sol/Foz do Arroio Dilúvio, Sport Clube Internacional/Largo D. Vicente Scherer, Estaleiro Só/Barra Shopping Sul, e Vila dos Pescadores.

As principais razões apontadas pelos participantes para gostar de cada lugar foram: Usina do Gasômetro – contemplação das visuais; Parque Maurício Sirotsky Sobrinho – contemplação das visuais; Parque Marinha do Brasil – contemplação das visuais e contato com a natureza; Museu Iberê Camargo – contemplação da visuais e visita a espaços culturais; Veleiros do Sul – contemplação da visuais e contato com a natureza; e Associação dos Auditores do Estado – contemplação da visuais e aparência positiva dos espaços abertos. Logo, contemplar as visuais é o quê os usuários mais gostam de fazer neste trecho da orla.

As principais razões apontadas pelos usuários para não gostar de cada lugar foram: Anfiteatro Pôr-do-Sol/Foz do Arroio Dilúvio – aparência negativa dos espaços abertos e lixo; Sport Clube Internacional/Largo D. Vicente Scherer – aparência negativa dos espaços abertos e falta de manutenção; Estaleiro Só/Barra Shopping Sul – aparência negativa dos espaços abertos e falta de manutenção; e Vila dos Pescadores – aparência negativa dos espaços abertos e insegurança quanto ao trânsito. A razão mais vezes citada para não gostar foi a aparência negativa dos espaços abertos, indicando o desejo pela requalificação destes espaços.

preferencias

Resultados PPSIG Orla do Guaíba (1 de 5)

Em dezembro do ano passado foi realizado um experimento acadêmico chamado PPSIG (Participação Pública com Sistemas de Informação Geográfica) Orla do Guaíba, cujo objetivo era coletar a percepção de moradores de Porto Alegre sobre a qualidade dos espaços da orla no trecho compreendido entre a Usina do Gasômetro e a Vila Assunção.

A PPSIG envolve a criação de informações espaciais por comunidades locais, que alimentam uma base de dados espacial em um ambiente de SIG, e a sua posterior utilização na tomada de decisão sobre questões que afetam esta mesma comunidade.

Durante um mês, a PPSIG Orla do Guaíba foi divulgada nas redes sociais, e, no total, 153 pessoas responderam ao questionário online na sua totalidade. Agora chegou a hora do feedback.

PPSIG orla

A PPSIG Orla do Guaíba continha doze questões, que previam a marcação de pontos ou linhas no mapa interativo, distribuídas em quatro temas. Na sequência, os resultados para cada um dos temas serão apresentados numa série de quatro posts: Preferências, Uso futuro, Acessibilidade, e Melhorias.

Resumidamente, a análise visual e exploratória dos mapas que serão apresentados nos próximos posts permite destacar a opinião dos participantes quanto a:

  • Manutenção e prevalência das condições de contemplação das visuais – a razão mais vezes citada para gostar dos lugares e também o uso futuro mais vezes citado;
  • Melhoria da aparência dos espaços como um todo – a razão mais vezes citada para não gostar dos lugares;
  • Uso futuro da orla predominantemente para a contemplação das visuais, prática de esportes, lazer passivo e usufruto de bares e restaurantes;
  • Acesso exclusivo de pedestres em pontos em que hoje é permitido o acesso de veículos, tais como: Anfiteatro Pôr-do-Sol e Parque Maurício Sirotsky Sobrinho;
  • Ampliação dos caminhos para pedestres e das faixas exclusivas para ciclistas por toda a extensão da orla; e
  • Melhorias, principalmente, de iluminação, limpeza e manutenção, sanitários públicos e mobiliário urbano.

Em princípio, toda proposta de intervenção urbana deveria levar em consideração a opinião da população, tal como coletada neste experimento. Assim, os resultados poderiam ser utilizados para orientar futuras decisões relacionadas ao planejamento e a gestão do espaço urbano em questão, aproximando os cidadãos das decisões, bem como do poder público.

Evolução do Papel dos SIG e das Tecnologias no Planejamento Urbano

Segundo Klosterman (2001) e Foth et al. (2009), o papel dos SIG e das tecnologias no planejamento urbano foi evoluindo de acordo com a teoria de planejamento em voga e com as tecnologias disponíveis.

Influenciado pelo paradigma positivista, a abordagem do planejamento urbano na década de 1960 foi o planejamento racional. As tecnologias serviam para fornecer suporte ao planejamento politicamente neutro e objetivo. A tecnologia disponível, os computadores de grande porte, eram utilizados principalmente por departamentos governamentais e universidades. Era, portanto, um planejamento guiado por especialistas.

Na década de 1970, movido pela perspectiva da economia política, com foco na promoção da equidade social, começou-se a questionar a abordagem positivista. As tecnologias eram vistas como parte inerente das estruturas de poder existentes, reforçando os interesses políticos em vez de beneficiar as comunidades.

Na década de 1980, a teoria comunicativa de Habermas influenciou o planejamento comunicativo, orientado para a participação pública no planejamento e processos de tomada de decisão. O papel das tecnologias era facilitar a transmissão de informações e a comunicação. Neste período, o acesso às geotecnologias tornou-se mais fácil.

Desde a década de 1990 tem havido uma tendência crescente à utilização dos SIG, com o desenvolvimento da WebGIS, e softwares de SIG livre. Neste período, o planejamento evoluiu para uma abordagem de equipe multidisciplinar, pluralista, com ênfase no planejamento colaborativo e um nível ainda maior de envolvimento dos cidadãos.

Porém, Klosterman (2001) e Foth et al. (2009) param por ai na sua análise evolutiva do uso dos SIG no planejamento. Para completar este quadro, especula-se que no século XXI, ocorrerá um necessário alargamento do papel dos SIG no planejamento urbano, fomentado pelo planejamento eletrônico, ubiquidade das tecnologias digitais no espaço urbano, cidadãos como sensores, e as cidades inteligentes.

Referências:

Klosterman, R. E. 2001. Planning Support Systems: A New Perspective on Computer-aided Planning. In: Brail, R. K.; Klosterman, R. E. (Eds.), Redlands, California: ESRI.

Foth, M.; Bajracharya, B.; Brown, R.; Hearn, G. 2009. The Second Life of urban planning? Using NeoGeography tools for community engagement. Journal of Location Based Services, v 3, n. 2, p. 97-117.

Encontro: Mapeamento Colaborativo e Cultura da Participação e o Espaço Urbano

TransvencaoLab

A convite do pessoal do TransvençãoLAB estaremos dia 10/12 (terça) lá na Casa Duplan falando dos temas que abordamos aqui no blog. Nada como encontros ao vivo!

Apareçam. Até lá.

Evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/606955446037041/

Cultura da Participação

Paulatinamente nos afastamos de um mundo em que um pequeno número de pessoas define regras, cria produtos e toma decisões, na direção de um mundo em que todas as pessoas são dotadas de meios para participar e contribuir ativamente na resolução de problemas pessoalmente significativos, o que Gerhard Fischer caracteriza como “cultura da participação”. Para o autor, esta cultura da participação oferece oportunidades para enfrentar grandes problemas da sociedade, tais como:

  • Problemas de uma magnitude que individuos e grandes equipes não podem resolver sozinhos, como, por exemplo, criar modelos 3D de todos os edifícios do mundo, conforme está sendo feito pelo Google SketchUp e seu Armazém 3D;
  • Problemas de natureza sistêmica, que exigem a colaboração de muitos atores diferentes, tal como o planejamento urbano;
  • Problemas que exigem alto grau de envolvimento e dedicação, como o design de softwares; e
  • Problemas de modelagem única, como as necessidades específicas de pessoas com deficiência.

A fim de criar e desenvolver ambientes sociotécnicos que apoiem a cultura da participação, Fischer salienta que é necessário considerar as seguintes questões:

  • Meta-projeto – os projetos devem ser encarados como processos em contínua transformação, em que as mudanças devem ser possíveis, visíveis e viáveis, pois os usuários demonstram suas reais necessidades durante o uso;
  • Criatividade social – todas as vozes devem ser ouvidas na elaboração de soluções para problemas complexos, pois a criatividade social requer diversidade, independência, descentralização, e agregação;
  • Ecologias de participação – devem-se criar diferentes tipos de participação, que apoiem papéis variados, com base em distintos níveis de experiência, interesses e motivações.

Além disso, o autor argumenta que o fornecimento de feedback, estabelecimento de metas, e informações personalizadas também são úteis para motivar as pessoas.

Para avaliar a viabilidade e aplicabilidade destes conceitos, Fischer explorou-os em vários domínios, incluindo a elaboração de software de código aberto e de projetos de arquitetuta e urbanismo. Os estudos forneceram evidências de que as pessoas desejam se engajar quando podem decidir, e que no fim valorizam muito mais as soluções feitas por elas. Porém, é inconveniente forçar as pessoas a serem contribuintes ativos em atividades pessoais irrelevantes. Isto pode ser ilustrado pelas ferramentas modernas do tipo do-it-yourself, com as quais as pessoas têm de executar tarefas que anteriormente seriam realizadas por trabalhadores qualificados (montagem de mobiliários, por exemplo). Embora essa mudança forneça liberdade e controle, também força as pessoas a agirem como contribuintes em contextos em que elas não têm a experiência e o conhecimento necessário para fazer essas tarefas.

Por fim Fischer conclui que todas as pessoas querem tanto ser o consumidor – em atividades pessoais irrelevantes, quanto um contribuinte ativo – em atividades pessoalmente significativas.

Fonte: Fischer, G. Understanding, fostering, and supporting cultures of participation. Interactions, v. 18, n. 3, p. 42-53, 2011.

Barreiras à Utilização dos SIG no Planejamento

O interesse por parte dos planejadores em adotar os SIG nas suas atividades práticas vem crescendo ultimamente. As razões incluem os avanços nos softwares livres, a forte presença de ferramentas básicas de SIG e mapas online, a promoção da educação superior, o aumento do acesso a bases de dados abertas, e a difusão das geotecnologias no setor privado.

No entanto, o uso dos SIG em órgãos públicos de planejamento ainda não atingiu o nível que os estudiosos imaginavam. Nos casos em que ocorre, a utilização é bastante básica, e raramente inclui modelagem de cenários ou análise espacial, mas tão somente inventários e mapas. O potencial dos SIG como ferramenta de planejamento não está sendo totalmente explorado.

Uma pesquisa realizada em órgãos públicos de planejamento dos Estados Unidos em 2007 concluiu que treinamento, financiamento e disponibilidade de dados são os maiores obstáculos à utilização dos SIG no planejamento.

Segundo os pesquisadores, a capacitação dos técnicos especificamente em aplicações de SIG no planejamento urbano é a principal medida que deve ser tomada para ajudar a alterar esta situação. Ou seja, a visão limitada do potencial dos SIG é um problema maior do que a falta de recursos financeiros.

Outros pontos destacados foram as mudanças bruscas nos softwares – ocasionando dificuldade em manter-se informado, a falta de financiamento – que tanto dificulta o acesso à formação quanto aos softwares e hardwares, e problemas com a disponiblidade de dados espaciais – que persiste mesmo duas décadas depois do surgimento dos SIG nas esferas públicas.

Para superar as barreiras, a pesquisa sugere uma formação que inclua:

  • Oficinas, seminários e aulas que destaquem a utilidade dos SIG para análises espacias, modelagem, e participação pública;
  • Treinamentos com ferramentas de SIG na Internet, uma vez que são ferramentas prontamente disponíveis;
  • Melhorar a acessibilidade aos treinamentos;
  • Compartilhamento de experiências e discussão do futuro do ensino dos SIG no currículo dos cursos de planejamento urbano e áreas afins;
  • Promover o trabalho em rede (conferências, encontros de grupos de usuários, listas de discussão), a fim de aumentar a consciência sobre casos bem sucedidos.

Fonte: Göçmen, Z. A.; Ventura, S. J. Barriers to GIS use in planning. Journal of the American Planning Association, v. 76, n.2, p. 172-183, 2010.

O Sonho Brasileiro

Diante das manifestações ocorridas no mês passado, foram várias as reflexões publicadas tentando entender (outras desencorajar ou até mesmo desqualificar)  as manifestações.

Uma vertente de opiniões aponta para uma ruptura com o modelo político vigente. Carlos Vainer cita que estes episódios expressam “uma extraordinária vontade” de “transformar de modo radical a sociedade brasileira e as formas de exercício do poder político”. Para Manuel Castells os cidadãos, em sua grande maioria, não se sentem representados e respeitados pelas instituições democráticas. E Slavoj Žižek sentencia que estamos a caminho de uma ruptura global e faz-se necessário reinventar a democracia.

Uma pesquisa realizada em 2011 pelo projeto O Sonho Brasileiro já havia revelado esta vontade, entre os jovens brasileiros, de assumir, progressivamente, sua responsabilidade pelo país. Estes jovens, como visto nas manifestações, “questionam cada vez mais a herança política do Brasil que, ao longo de sua história, sempre esperou a salvação prometida vinda de cima”. Ao contrário de “…nossos pais [que] acreditavam neles [políticos]”, eles: “enxergam que tal espera afasta os brasileiros da arena política e coloca o país numa posição de passividade e submissão em relação aos partidos e políticos ‘profissionais’ – que caem cada vez mais em descrédito devido ao seu histórico de abuso de poder, práticas clientelísticas e escândalos de corrupção.”

Segundo a pesquisa, a juventude brasileira acredita que a participação pode transformar o Brasil, pois: acostumaram-se desde cedo a pensar de forma sistêmica e não-hierárquica, não acreditam que o Brasil será salvo por um messias [político], entendem que a transformação deve se dar também de baixo para cima, e que a cidadania e a ética devem ser fortalecidas para que a participação seja possível.

Eles vêem a Internet e as redes digitais como a maior ferramenta de capacitação de pessoas e transformação social já criada e acreditam na lógica colaborativa: “Tendo nascido num mundo globalizado e interligado, os jovens enxergam cada vez menos barreiras para agir porque sabem que podem contar com suas redes. Acreditam ser mais inteligente e eficiente agir em conjunto do que tentar fazer tudo sozinho ou apenas delegar responsabilidades a outros.”

Nas palavras dos próprios jovens:

“Na nossa geração, a gente aprendeu a construir redes formais, virtuais, naturalmente desde pequeno. Então é outro sistema, outra velocidade de comunicação e de relacionamento.”

“Inevitavelmente você vai acabar criando uma rede pra poder fortalecer você mesmo até. Você vai precisar de gente, se conectar com pessoas, com outros grupos, com outros movimentos, com outros projetos com outras coisas pra se tornar mais eficaz no seu propósito.”

Vale muito a pena dar uma olhada na pesquisa a fim de melhor entender o momento que estamos vivendo e desfazer o ceticismo de muitos que não acreditam (ou não querem acreditar) na possibilidade de mudanças reais.

Para Refletir Sobre os Planos Diretores

Em quase todos os países, as cidades são obrigadas pelos governos nacionais a produzirem o seu plano diretor, o qual especifica, em geral, o uso do solo e o padrão das construções. Uma vez aprovado ele deve servir como um guia ao longo de muitos anos.

Mas, autores como Friedmann e Villaça, por exemplo, criticam duramente os planos diretores. Para Friedmann, esta forma de planejamento é uma prática completamente estática, que precisa ser repensada, pois está totalmente fora de sintonia com os fluxos dinâmicos da atualidade. O autor enumera várias razões:

  • Planos diretores são tipicamente municipais em vez de regionais;
  • São exclusivamente preocupados com o uso da terra, ao invés de com o espectro total das questões da política urbana;
  • São elaboradas por um quadro técnico especializado, ao invés de um processo mais amplo de deliberação colaborativa;
  • O processo de elaboração e aprovação leva anos, de modo que estão geralmente desatualizados no momento em que entram em vigor;
  • São impostos de cima para baixo, com relativamente pouca e principalmente simbólica participação cidadã; e
  • Quando se trata de um grande projeto, os planos são muitas vezes desconsiderados para permitir as mudanças necessárias.

Este último argumento pode ser bem exemplificado. Vimos recentemente como os índices construtivos foram alterados, em função da Copa do Mundo. Ou como o programa Minha Casa Minha Vida, do Governo Federal, desconsiderou os Planos Locais de Habitação de Interesse Social, legalmente obrigatórios e financiados pelo próprio Ministério das Cidades.

Friedmann propõe um modelo de planejamento mais flexível, o qual:

  • Possui um papel de instrumento coordenador, e não um caráter oficial e obrigatório;
  • Tem diferentes aplicações nas três escalas da política urbana;
  • Não objetiva impor determinado uso do solo;
  • Objetiva permitir um debate público informado, no qual, os participantes são, de fato, engajados num processo interativo;
  • Deve ser entendido como um processo executado em “tempo real”;
  • Possui documentos transitórios, que constantemente atualizados oferecem uma série de “instantâneos”;
  • Valoriza a experiência profissional dos planejadores, que trabalham como membros de equipes.

Referências

Friedmann, J. A spatial framework for urban policy: New directions, new challenges. In OECD International Conference on What Policies for Globalizing Cities? Rethinking the Urban Policy Agenda, Madrid, 2007.

VILLAÇA, F. As Ilusões do Plano Diretor. São Paulo: 2005, 94 p.

O novo urbanismo

Os ideais do novo urbanismo tem conquistado vários adeptos, principalmente nos Estados Unidos (e.g. James Howard Kunstler). O novo urbanismo defende um planejamento baseado em resultados físicos, numa visão de cidade compacta e heterogênea. Se assemelha aos primórdios do urbanismo ao usar as relações espaciais para criar uma cidade melhor. Daí o nome.

O novo urbanismo clama por projetos urbanos que incluam uma variedade de tipos de construções, usos mistos, habitação para diferentes grupos de renda, presença marcante dos espaços públicos, forma urbana que estimule a vizinhança, envolvimento da comunidade, e sentimentos subjetivos de integração com o ambiente e satisfação estética. Segundo os defensores, sua concepção incorpora as diferenças e proporciona às pessoas o que elas realmente querem e não o que as leis de zoneamento e construtores lhes impõem. A unidade básica de planejamento é o bairro, haja vista que a crítica ao subúrbio americano é parte fundamental do discurso do novo urbanismo.

Talvez o aspecto mais interessante do novo urbanismo é que sua promessa de uma melhor qualidade de vida inspira movimentos sociais. Há uma atração à doutrina porque os lugares que pretendem criar são apelativos a qualquer um.

O Placemaking, por exemplo, é um movimento que se descreve ao mesmo tempo um processo e uma filosofia, que se inspira na comunidade para a criar espaços públicos agradáveis ​​e interessantes que promovam a saúde das pessoas, a felicidade e o bem-estar. Segundo o Projects for Public Space, os conceitos do placemaking originaram-se na década de 1960, nas idéias de Jane Jacobs sobre a criação de cidades para pessoas, a importância dos bairros e dos espaços públicos convidativos, e a posse cidadã das ruas através da agora famosa idéia dos “olhos na rua”.

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Outro exemplo neste sentido é o já bastante conhecido Cidade para Pessoas, um projeto criado pela jornalista Natália Garcia (Jane Jacobs também era jornalista! – qualquer semelhança não é mera coincidência?) que questiona: “Mas como tornar uma cidade melhor para seus moradores?” Inspirada pelo trabalho do arquiteto dinamarquês Jan Gehl, ela viajou por diversas cidade do mundo buscando inspiração. Atualmente mantém um blog e faz diversas palestras divulgando as boas práticas para a aplicação nas cidades brasileiras.

Referências

Fainstein, S. S. New directions in planning theory. Urban affairs review, v. 35,  n. 4, p. 451-478, 2000.

 

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