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Barreiras à Utilização dos SIG no Planejamento

O interesse por parte dos planejadores em adotar os SIG nas suas atividades práticas vem crescendo ultimamente. As razões incluem os avanços nos softwares livres, a forte presença de ferramentas básicas de SIG e mapas online, a promoção da educação superior, o aumento do acesso a bases de dados abertas, e a difusão das geotecnologias no setor privado.

No entanto, o uso dos SIG em órgãos públicos de planejamento ainda não atingiu o nível que os estudiosos imaginavam. Nos casos em que ocorre, a utilização é bastante básica, e raramente inclui modelagem de cenários ou análise espacial, mas tão somente inventários e mapas. O potencial dos SIG como ferramenta de planejamento não está sendo totalmente explorado.

Uma pesquisa realizada em órgãos públicos de planejamento dos Estados Unidos em 2007 concluiu que treinamento, financiamento e disponibilidade de dados são os maiores obstáculos à utilização dos SIG no planejamento.

Segundo os pesquisadores, a capacitação dos técnicos especificamente em aplicações de SIG no planejamento urbano é a principal medida que deve ser tomada para ajudar a alterar esta situação. Ou seja, a visão limitada do potencial dos SIG é um problema maior do que a falta de recursos financeiros.

Outros pontos destacados foram as mudanças bruscas nos softwares – ocasionando dificuldade em manter-se informado, a falta de financiamento – que tanto dificulta o acesso à formação quanto aos softwares e hardwares, e problemas com a disponiblidade de dados espaciais – que persiste mesmo duas décadas depois do surgimento dos SIG nas esferas públicas.

Para superar as barreiras, a pesquisa sugere uma formação que inclua:

  • Oficinas, seminários e aulas que destaquem a utilidade dos SIG para análises espacias, modelagem, e participação pública;
  • Treinamentos com ferramentas de SIG na Internet, uma vez que são ferramentas prontamente disponíveis;
  • Melhorar a acessibilidade aos treinamentos;
  • Compartilhamento de experiências e discussão do futuro do ensino dos SIG no currículo dos cursos de planejamento urbano e áreas afins;
  • Promover o trabalho em rede (conferências, encontros de grupos de usuários, listas de discussão), a fim de aumentar a consciência sobre casos bem sucedidos.

Fonte: Göçmen, Z. A.; Ventura, S. J. Barriers to GIS use in planning. Journal of the American Planning Association, v. 76, n.2, p. 172-183, 2010.

Três Escalas Urbanas: Bairro, Cidade, Região

Vale muito a leitura do artigo “A Spatial Framework for Urban Policy: New Directions, New Challenges” de John Friedmann, que foi apresentado na Conferencia Internacional da OECD em Madrid em 2007.

Um pequena parte do artigo, que é todo muito interessante, aborda as três escalas urbanas de planejamento: o bairro, a cidade, e a região. O autor retrata de forma tão lúcida as características físicas e sociais e os desafios de planejamento destas escalas urbanas que bem poderia ser o roteiro de um documentário sobre a urbanização no século XXI. Segue aqui uma espécie de resenha desta parte, que espero suscite a curiosidade para ler o artigo todo.

Em vários aspectos, a escala mais importante é a do bairro, pois o bairro é a escala da vida cotidiana, na qual se forma o senso de lugar, e, por consequência, de comunidade. Variando em tamanho, mas geralmente constituídos numa escala que é possível percorrer caminhando, os bairros são formados principalmente por áreas residenciais e serviços públicos (parques, comércio de conveniência, ensino). Em muitas cidades globalizadas, certos bairros tornaram-se focos de tensão étnica, pois até mesmo os bairros mais antigos não são necessariamente estáveis. Há fluxos de pessoas, bem como mudanças nos padrões de riqueza, declínio, e gentrificação.

Bairro Palmeiras

O município é a segunda escala da vida urbana. Municípios são unidades governamentais e administrativas que podem ser subdivididos em bairros e distritos. No espaço densamente povoada da cidade, todas as funções urbanas estão reunidas (residencial, industrial, comercial, cultural). Quando olhamos para a cidade como um todo, nós começamos a ver seus bairros históricos e monumentos, suas periferias, suas divisões étnicas e sociais, suas artérias principais, suas formas de relevo dominantes, seus parques e margens de rios  e lagos, suas áreas comerciais, suas torres de escritórios e seus distritos industriais. Todas estas categorias, sobrepostas, dentro da jurisdição municipal, constituem um padrão fragmentado de tecido urbano.

cidade

O espaço além das fronteiras municipais é a terceira escala do urbano, essencial para a sobrevivência da cidade e  de sua expansão futura. Aqui encontramos as fontes do seu abastecimento de água, os aterros de seus resíduos sólidos, novos loteamentos urbanos, cidades satélite, portos e aeroportos, grandes parques industriais, áreas de lazer naturais e parques temáticos, áreas de agricultura intensiva, matadouros, locais de excepcional beleza natural, áreas de preservação histórica, etc. De uma forma ou de outra, todos estes espaços contribuem para o bem-estar de toda a região. Esta região é atravessada por vias expressas e ferrovias que a ligam ao resto do mundo, ao mesmo tempo em que carregam o tráfego suburbano do dia a dia. Administrativamente, é dividida em várias unidades governamentais que tem poderes limitados sobre cada seção do espaço, mas que podem ser combinadas em organizações regionais. Além disso, cada região está ligada a outras regiões próximas e distantes.

regiao

Devido à estreita interligação entre a cidade central e a região, muitos urbanistas consideram as regiões como a unidade espacial básica para a política urbana e o planejamento. Embora muitas vezes falemos de cidades globalizadas, o que realmente está se globalizando são as regiões que podem crescer tanto até chegar a uma escala como a da região metropolitana de Tóquio, com seus 35 milhões de pessoas, a maior concentração urbana do mundo.

As tarefas da política urbana são diferente em cada escala. Na escala de bairro, necessidades e o bem-estar das pessoas são o mais importante. Aqui também encontramos conflitos sociais, porque os bairros raramente são homogêneos, e apesar de sua dimensão relativamente pequena, os moradores frequentemente discordam sobre o curso de ação a ser tomado. A gentrificação de bairros quase sempre vai chocar-se com a resistência das comunidades locais já estabelecidas, porque por mais pobre que sejam, seus moradores têm medo de serem deslocados. No outro extremo do espectro social, áreas ricas estão interessadas ​​em manter certo tipo de pessoas (de uma cor diferente, uma língua diferente, uma cultura diferente), longe de seus bem cuidados (e muitas vezes fortificados) recintos. Assim como bairros de classe trabalhadora pleiteiam com as autoridades os serviços públicos que são concedidos em outros lugares, como a coleta de lixo ou o acesso a centros de saúde. Bairros são, portanto, não somente lugares acolhedores como alguns imaginam, alguns são lugares complicados.

Na escala municipal, os problemas são percebidos de forma diferente. Os atores chave aqui são o governo da cidade, políticos, burocratas, bem como empresários influentes. Seu foco tende a refletir os interesses que giram em torno da economia urbana, o uso do solo, e a qualidade da infraestrutura urbana. Ao mesmo tempo, porém, os governantes locais também têm que agradar os vários bairros da cidade e responder não só às suas demandas, mas também estar atento ao funcionamento de todo o tecido urbano através do fornecimento de acesso universal aos serviços públicos. Não menos importante, as autoridades urbanas tem que aprender a trabalhar em conjunto com os seus homólogos na região circundante, da qual grande parte da vida da cidade depende.

A coordenação das políticas urbanas dos espaços gigantescos da metrópole é uma tarefa extremamente difícil, que exige uma grande dose de clarividência e habilidade, bem como novas formas de governança colaborativa.  Há de se lidar com sociedades civis e movimentos sociais, cujas preocupações devem ser ouvidas, bem como também devem ser respeitadas as de organizações industriais e de negócios poderosos. Associações regionais formais são difíceis, mas não impossíveis de gerir, como evidências da Europa tem mostrado.

Palestra sobre Geoprocessamento no IAB-RS

Amanhã, 25/7, às 19h30, estaremos debatendo o uso do Geoprocessamento no Planejamento e na Gestão Urbana no IAB-RS, juntamente com o professor Julio Celso Vargas. A palestra faz parte do ciclo Desafios Urbanos, dentro da programação cultural que ocorre toda quarta-feira no IAB.

Nosso objetivo é mostrar as inúmeras potencialidades de aplicação do geoprocessamento no planejamento e na gestão urbana!

O IAB fica na Rua General Canabarro, 363, esquina com Riachuelo – Centro Histórico – Porto Alegre.

SIG e saúde pública. A história começa aqui…

Londres, séc. 19 – Um grande centro urbano superhabitado, industrializado e com muitos bairros sem sistema de escoamento cloacal onde era permitindo o despejo de dejetos em fossas nos porões ou mesmo no rios e canais. Em 1854, um surto de cólera arrasa o bairro do Soho. É neste cenário que muitos consideram o surgimento dos primeiros exemplos de mapeamento espacial de forma sistemática para estudo de fenômenos urbanos.

No livro “O Mapa Fantasma” (The Ghost Map, 2006) Steven Johnson descreve este acontecimento e seus personagens. Principalmente as ações de John Snow (físico e higienista) que após observações produz o famoso mapa relacionando os agrupamentos dos casos fatais de cólera e as bombas de fornecimento de água. Snow convenceu as autoridades a desativar a bomba de água na rua Broad, de onde concluiu ter partido a contaminação que se alastrou pela cidade, solucionando o aparecimento de novos casos gradativamente. Abaixo, o mapa produzido por John Snow mostrando agrupamento dos casos fatais de cólera onde cada barra representa uma morte. (Londres, 1854)

Snow não descobriu a causa do cólera, mas a relação  por proximidade do número de mortes e o ponto de fornecimento de água foi determinante para sua conclusão. Importante lembrar que eram tempos em que não se conhecia a microbiologia e a teoria dos miasmistas, onde os males eram transmitidos pelo ar e poluição, prevalecia sobre qualquer outra ideia.

Esta história gera controvérsias ainda debatidas quanto a originalidade das análises de Snow, mas claramente foi uma revolução no modo de pensar e agir. Temas como estatística, saúde pública e uso de informações sistematizadas de forma mais científica proporcionaram uma evolução para estudos modernos como a epidemiologia, urbanismo, análise espacial e visualização de dados.

Atualmente, surgem exemplos que unem a evolução dos Sistemas de Informação Geográfica (SIG) e a área da saúde pública. Na reportagem abaixo mostra um projeto em Santa Rosa/RS que está implantando o mapeamento dos pacientes locais. Mais importante que apenas ter os dados levantados é a possibilidade de cruzamentos e análise das correlações, otimizando as ações e suporte às decisões dos profissionais e administradores públicos. Clique na imagem e o vídeo será reproduzido em outra página.

Georreferenciamento é implantado na área da saúde de Santa Rosa pra agilizar atendimento (Globo.tv)

Voltando ao caso de Londres, as imagens abaixo mostram um simples exemplo de análise tempo/espacial dos acontecimentos que podem ser realizados em um SIG.

Fonte: Wikipedia. “Choleramaplondon1830”. Licensed under Copyrighted free use via Wikimedia Commons .

Ou ainda o trabalho do Laboratório de Visualização Eletrônica da Universidade de Illinois (Chicago) que de forma mais interativa mostra os dados da época e possibilita a análise de algumas relações e agrupamentos. (Melhor visualizado no Google Chrome).

[+] Primeiros capítulos do livro “O Mapa Fantasma”.
[+] Site do livro com mais informações e vídeos.
 
 

Geo.Canoas – dados urbanísticos na internet

O portal Geo.Canoas, idealizado pelo Instituto Canoas XXI, é um ótimo exemplo de democratização de informações geográficas, pois permite consulta de mapas topográficos e de ordenamento urbano na web, reunindo dados que antes ficavam centralizados nos computadores da Prefeitura Municipal. Por meio dessa ferramenta, lançada no início deste ano, qualquer cidadão tem acesso ao mapa de lotes da cidade, com diversas camadas de informação disponíveis, como, por exemplo, cadastro de logradouros, topografia, hidrografia, equipamentos comunitários e imagem de satélite atualizada.

Merece destaque a disponibilização de informações urbanísticas, como o ordenamento urbano, com seus respectivos índices e usos permitidos, e as diretrizes viárias, com seus respectivos perfis viários – tudo isso conforme o Plano Diretor do município. As informações vão aparecendo conforme se aumenta o nível de zoom, e consultas podem ser feitas mediante um simples clique no mapa.

Geo.Canoas1

Geo.Canoas2

Iniciativas como essa vem ao encontro das tendências mais recentes de transparência pública, além de constituírem importantes ferramentas de planejamento urbano e gestão, já que órgãos públicos e privados podem ter fácil acesso a dados urbanísticos.

Planejamento e gestão da mobilidade urbana

Resgatando velhos conceitos para o futuro da cidade, estudo de caso em São Luís – MA, elaborado por Diogo Pires Ferreira para o programa Master Europeu de Urbanismo, além de ser um belo vídeo, mostra como é possível, através de uma metodologia relativamente simples de diagnóstico, propor soluções para o problema tão complexo da mobilidade urbana.

Infelizmente essa maçaroca de linhas de ônibus, não é exclusividade de São Luís. Ou alguém entende esse mapa das linhas de ônibus de Porto Alegre? Já tentou contar quantas linhas tem ali? Entra no site da EPTC então e tenta achar uma linha de ônibus que passa pela tua rua!

Porto Alegre não tem licitação para as empresas de transporte coletivo há 20 anos. Aqui, como em muitos outros lugares, além do planejamento futuro, precisamos de uma gestão adequada dos serviços urbanos prestados à população.

No blog urbanidades é possível encontrar posts interessantes sobre mobilidade urbana, os quais também mostram que existem sim soluções que podem fazer toda a diferença!

por geisabugs

ObservaPOA

Quando se discutem novas formas de governar e monitorar as ações de participação pública locais é importante que isto acompanhe os novos métodos e  tecnologias disponíveis. São temas como governo eletrônico (eGov) e disponibilização de dados (opendata) que visam a transparência e eficácia na gestão pública.

Porto Alegre conta com a iniciativa da administração municipal no portal ObservaPOA que tem o objetivo de oferecer “uma ampla base de informações georreferenciadas sobre o município (…) contribuindo para a consolidação da participação cidadã na gestão da cidade“.

Seu projeto parte de uma ação conjunta de várias cidades e entidades civis para “sistematizar informações e congregar atores ampliando leque de informações, capacitando a ação do cidadão“. O portal reúne indicadores, banco de dados, monitora algumas ações da prefeitura e de participação cidadã com a intenção de construir um mapeamento socioeconômico e ambiental da cidade.

Transformando dados em aplicativos: Londres foi considerada uma ‘Cidade Inteligente’ pela TIME

Sendo uma iniciativa local é interessante acompanhar as notícias e de que forma o portal evolui. Também poder contribuir assim que for proposta uma interatividade maior. O ambiente ainda não é muito amigável e a disponibilização dos dados é pouca. É necessário ir além das tabelas e representações de mapas estáticos passando a trabalhar com webmapas mais interativos e download dos dados em formatos usuais (shape ou kml, por exemplo) para manipulação em programas adequados, acompanhando as ferramentas disponíveis. Devemos apostar neste tipo de portal em que a informação pode ir além de sua organização e visualização ou como diz o slogan do CivicApps Data da cidade de Portland (EUA): “Tornar os dados acessíveis e fáceis de usar”, tanto para o usuário mais experiente quanto para o interesses mais genéricos. É assim que nascem as idéias e iniciativas colaborativas, além de possibilitar maior monitoramento da transparência dos dados governamentais.

Abaixo, mais links de algumas cidades que estão apostando nestas ações:
City of Ottawa
ParisData
OpenBaltimore
Generalitat de Cataluña Datos Abiertos
Data.gov.uk
OpenDataPhilly

Novos princípios do urbanismo – François Ascher

François AscherFrançois Ascher (1946-2009), urbanista e sociólogo ganhador do Grand Prix de l’urbanisme de 2009,  é autor do livro ‘Metápolis’ (1995) e a quem é atribuído a definição do termo.

Em seu livro de 2001 ‘Novos princípios do urbanismo’ trata dos desafios da sociedade onde as conexões vão além dos laços físicos e visíveis e como a maior presença das redes nos obriga a entender a dimensão das cidades de outra forma. É o que chama de neo-urbanismo.

Aqui cito apenas algumas passagens onde o autor refere a importância dos modelos e na qualidade dos dados e informações para melhorias na gestão pública.

“Os profissionais do urbanismo serão levados a introduzir nas suas práticas o uso destes novos modelos de desempenho e a utilizar as potencialidades das TIC (Tecnologias da Informação e Comunicação) nas suas próprias atividades. Os bancos de dados urbanos e os modelos de simulação e visualização a três dimensões abrem, com efeito, possibilidades consideráveis que ‘retroagem’ nos conteúdos dos próprios projetos.” [Da particularização espacial à cidade de todas as redes]

“Isso [impulsionar a gestão procedimental de interesse geral] necessita de competências técnicas, de sistemas de observação e de bases de dados bastante mais elaboradas do que aquelas de que as administrações, com uma atividade que era muito mais ‘normalizada’ e repetitiva, dispunham.” [Da administração à regulação]

A versão de 2010 da editora portuguesa ainda traz do mesmo autor o texto  ‘Novos compromissos urbanos – um léxico’ (2008). No Brasil encontrei somente esta versão para venda.

por fausto

Dados e setor público

Este é um exemplo bem interessante de projeto que mostra como a sistematização e visualização de dados pode ajudar os usuários a explorar e compreender padrões e tendências, e também apresentar as informações aos outros auxiliando na tomada de decisões sólidas baseadas em dados apresentados. Desenvolvido no Reino Unido é uma parceira pública entre o Departamento para Comunidades e Governo Local e a Oxford Consultants for Social Inclusion (OCSI) da Universidade de Oxford.

Disponibilizar dados ao público de forma organizada é deixar tudo mais acessível além de mais transparente trazendo benefícios aos setores de planejamento. Nas páginas dos envolvidos há muita informação sobre estes temas. Mergulha lá!