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O Sonho Brasileiro

Diante das manifestações ocorridas no mês passado, foram várias as reflexões publicadas tentando entender (outras desencorajar ou até mesmo desqualificar)  as manifestações.

Uma vertente de opiniões aponta para uma ruptura com o modelo político vigente. Carlos Vainer cita que estes episódios expressam “uma extraordinária vontade” de “transformar de modo radical a sociedade brasileira e as formas de exercício do poder político”. Para Manuel Castells os cidadãos, em sua grande maioria, não se sentem representados e respeitados pelas instituições democráticas. E Slavoj Žižek sentencia que estamos a caminho de uma ruptura global e faz-se necessário reinventar a democracia.

Uma pesquisa realizada em 2011 pelo projeto O Sonho Brasileiro já havia revelado esta vontade, entre os jovens brasileiros, de assumir, progressivamente, sua responsabilidade pelo país. Estes jovens, como visto nas manifestações, “questionam cada vez mais a herança política do Brasil que, ao longo de sua história, sempre esperou a salvação prometida vinda de cima”. Ao contrário de “…nossos pais [que] acreditavam neles [políticos]”, eles: “enxergam que tal espera afasta os brasileiros da arena política e coloca o país numa posição de passividade e submissão em relação aos partidos e políticos ‘profissionais’ – que caem cada vez mais em descrédito devido ao seu histórico de abuso de poder, práticas clientelísticas e escândalos de corrupção.”

Segundo a pesquisa, a juventude brasileira acredita que a participação pode transformar o Brasil, pois: acostumaram-se desde cedo a pensar de forma sistêmica e não-hierárquica, não acreditam que o Brasil será salvo por um messias [político], entendem que a transformação deve se dar também de baixo para cima, e que a cidadania e a ética devem ser fortalecidas para que a participação seja possível.

Eles vêem a Internet e as redes digitais como a maior ferramenta de capacitação de pessoas e transformação social já criada e acreditam na lógica colaborativa: “Tendo nascido num mundo globalizado e interligado, os jovens enxergam cada vez menos barreiras para agir porque sabem que podem contar com suas redes. Acreditam ser mais inteligente e eficiente agir em conjunto do que tentar fazer tudo sozinho ou apenas delegar responsabilidades a outros.”

Nas palavras dos próprios jovens:

“Na nossa geração, a gente aprendeu a construir redes formais, virtuais, naturalmente desde pequeno. Então é outro sistema, outra velocidade de comunicação e de relacionamento.”

“Inevitavelmente você vai acabar criando uma rede pra poder fortalecer você mesmo até. Você vai precisar de gente, se conectar com pessoas, com outros grupos, com outros movimentos, com outros projetos com outras coisas pra se tornar mais eficaz no seu propósito.”

Vale muito a pena dar uma olhada na pesquisa a fim de melhor entender o momento que estamos vivendo e desfazer o ceticismo de muitos que não acreditam (ou não querem acreditar) na possibilidade de mudanças reais.