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Cultura da Participação

Paulatinamente nos afastamos de um mundo em que um pequeno número de pessoas define regras, cria produtos e toma decisões, na direção de um mundo em que todas as pessoas são dotadas de meios para participar e contribuir ativamente na resolução de problemas pessoalmente significativos, o que Gerhard Fischer caracteriza como “cultura da participação”. Para o autor, esta cultura da participação oferece oportunidades para enfrentar grandes problemas da sociedade, tais como:

  • Problemas de uma magnitude que individuos e grandes equipes não podem resolver sozinhos, como, por exemplo, criar modelos 3D de todos os edifícios do mundo, conforme está sendo feito pelo Google SketchUp e seu Armazém 3D;
  • Problemas de natureza sistêmica, que exigem a colaboração de muitos atores diferentes, tal como o planejamento urbano;
  • Problemas que exigem alto grau de envolvimento e dedicação, como o design de softwares; e
  • Problemas de modelagem única, como as necessidades específicas de pessoas com deficiência.

A fim de criar e desenvolver ambientes sociotécnicos que apoiem a cultura da participação, Fischer salienta que é necessário considerar as seguintes questões:

  • Meta-projeto – os projetos devem ser encarados como processos em contínua transformação, em que as mudanças devem ser possíveis, visíveis e viáveis, pois os usuários demonstram suas reais necessidades durante o uso;
  • Criatividade social – todas as vozes devem ser ouvidas na elaboração de soluções para problemas complexos, pois a criatividade social requer diversidade, independência, descentralização, e agregação;
  • Ecologias de participação – devem-se criar diferentes tipos de participação, que apoiem papéis variados, com base em distintos níveis de experiência, interesses e motivações.

Além disso, o autor argumenta que o fornecimento de feedback, estabelecimento de metas, e informações personalizadas também são úteis para motivar as pessoas.

Para avaliar a viabilidade e aplicabilidade destes conceitos, Fischer explorou-os em vários domínios, incluindo a elaboração de software de código aberto e de projetos de arquitetuta e urbanismo. Os estudos forneceram evidências de que as pessoas desejam se engajar quando podem decidir, e que no fim valorizam muito mais as soluções feitas por elas. Porém, é inconveniente forçar as pessoas a serem contribuintes ativos em atividades pessoais irrelevantes. Isto pode ser ilustrado pelas ferramentas modernas do tipo do-it-yourself, com as quais as pessoas têm de executar tarefas que anteriormente seriam realizadas por trabalhadores qualificados (montagem de mobiliários, por exemplo). Embora essa mudança forneça liberdade e controle, também força as pessoas a agirem como contribuintes em contextos em que elas não têm a experiência e o conhecimento necessário para fazer essas tarefas.

Por fim Fischer conclui que todas as pessoas querem tanto ser o consumidor – em atividades pessoais irrelevantes, quanto um contribuinte ativo – em atividades pessoalmente significativas.

Fonte: Fischer, G. Understanding, fostering, and supporting cultures of participation. Interactions, v. 18, n. 3, p. 42-53, 2011.

O novo urbanismo

Os ideais do novo urbanismo tem conquistado vários adeptos, principalmente nos Estados Unidos (e.g. James Howard Kunstler). O novo urbanismo defende um planejamento baseado em resultados físicos, numa visão de cidade compacta e heterogênea. Se assemelha aos primórdios do urbanismo ao usar as relações espaciais para criar uma cidade melhor. Daí o nome.

O novo urbanismo clama por projetos urbanos que incluam uma variedade de tipos de construções, usos mistos, habitação para diferentes grupos de renda, presença marcante dos espaços públicos, forma urbana que estimule a vizinhança, envolvimento da comunidade, e sentimentos subjetivos de integração com o ambiente e satisfação estética. Segundo os defensores, sua concepção incorpora as diferenças e proporciona às pessoas o que elas realmente querem e não o que as leis de zoneamento e construtores lhes impõem. A unidade básica de planejamento é o bairro, haja vista que a crítica ao subúrbio americano é parte fundamental do discurso do novo urbanismo.

Talvez o aspecto mais interessante do novo urbanismo é que sua promessa de uma melhor qualidade de vida inspira movimentos sociais. Há uma atração à doutrina porque os lugares que pretendem criar são apelativos a qualquer um.

O Placemaking, por exemplo, é um movimento que se descreve ao mesmo tempo um processo e uma filosofia, que se inspira na comunidade para a criar espaços públicos agradáveis ​​e interessantes que promovam a saúde das pessoas, a felicidade e o bem-estar. Segundo o Projects for Public Space, os conceitos do placemaking originaram-se na década de 1960, nas idéias de Jane Jacobs sobre a criação de cidades para pessoas, a importância dos bairros e dos espaços públicos convidativos, e a posse cidadã das ruas através da agora famosa idéia dos “olhos na rua”.

place_diagram

Outro exemplo neste sentido é o já bastante conhecido Cidade para Pessoas, um projeto criado pela jornalista Natália Garcia (Jane Jacobs também era jornalista! – qualquer semelhança não é mera coincidência?) que questiona: “Mas como tornar uma cidade melhor para seus moradores?” Inspirada pelo trabalho do arquiteto dinamarquês Jan Gehl, ela viajou por diversas cidade do mundo buscando inspiração. Atualmente mantém um blog e faz diversas palestras divulgando as boas práticas para a aplicação nas cidades brasileiras.

Referências

Fainstein, S. S. New directions in planning theory. Urban affairs review, v. 35,  n. 4, p. 451-478, 2000.

 

Crowdsourcing idéias para as cidades

O crowdsourcing operacionaliza a chamada sabedoria das multidões, termo oriundo do livro The Wisdom of Crowds de James Surowiecki sobre a agregação de informação em grupos. Com base em investigações empíricas o autor conclui que sob as circunstâncias corretas, os grupos são muitas vezes mais inteligentes do que as pessoas mais inteligentes neles.

Talvez o maior exemplo de crowdsourcing seja a Wikipédia, um dos sítios mais acessados atualmente. A enciclopédia livre e gratuita é construída continuamente através de um sistema de gerenciamento de conteúdo que cria um repositório de informações atualizáveis facilmente por seus usuários, a Wiki. A Wiki nasceu porque um desenvolvedor, cansado das pessoas lhe pedirem para atualizar isso ou aquilo, convidou-as para contribuir escrevendo relatórios informais e compartilhar essas idéias com todos. Para tornar isso possível, ele criou um aplicativo Web, no qual qualquer um poderia contar a sua história e editar o que foi escrito por outros, melhorando assim o conteúdo da informação.

Se o crowdsourcing é um modelo legitimo de resolução de problemas, porque o planejamento urbano não pode utiliza-lo? É o que propõe Daren C. Brabham neste artigo. Para ele, em essência, qualquer projeto de planejamento urbano baseia-se em um problema, e se houver um problema que pode ser moldado de forma clara, e se todos os dados relativos a este problema podem ser disponibilizados, esse problema pode ser crowdsourced.

Iniciativas como esta de Hamburgo e desse pessoal do Rio de Janeiro baseiam-se nessa premissa. Permitem que os indivíduos desenvolvam idéias e as coloquem para revisão entre seus pares. Então, facilmente, a multidão pode vasculhar as idéias para encontrar as boas, uma classificação que poderia ser feita com uma simples votação online do tipo “curti”.

Urbanized (Gary Hustwit, 2011) – Aluguel de stream online

O documentário Urbanized (Gary Hustwit, 2011) já exibido nos EUA, Canadá e alguns países da Europa está disponível de forma online e paga desde início de dezembro.

Além ser oferecido na loja do iTunes (somente para América do Norte) agora também é possível alugar (!) o stream em HD do vídeo por 6,99 dólares.  No site explica como isto funciona e as formas de assitir. Inclusive como postar em um site ou blog e ganhar uma porcentagem das compras feitas através dele.

Como ainda não assisti ao documentário, este post é mais um aviso da possibilidade de fazer isso. É uma opção legal (nos dois sentidos!) para quem quer assistir e não tem muita esperança que chegue em alguma sala por perto. O espaço dos comentários esta aberto para as críticas e discussões.

Urbanized is a brave and timely movie that manages to strike almost exactly the right tone. The more people who see this movie the better. And the more politicians who see it – and are persuaded to look beyond the vested interests in front of them – the more powerful a tool Urbanized be.
– The Guardian

Assim o autor fecha a sua Design Triology, precedida pelos documentários Helvetica (2007) e Objectified (2009), que abordam temas como tipografia, design, arquitetura e urbanismo.

O modelo de cidade dos subúrbios norte-americanos que estamos copiando

Neste vídeo to TED, James Kunstler critica os subúrbios norte-americanos. Na opinião dele, os espaços públicos deveriam inspirar a vida cívica e manifestações do bem comum, mas, nos EUA, isso não ocorre!

Amigos sempre perguntam por que sou contra os condomínios fechados. Quem ver este vídeo vai entender um pouco: eles fazem mal às cidades e à cidadania!

Vale a pena conferir o vídeo e refletir sobre este modelo de cidade que estamos “copiando” através da explosão de condomínios fechados (para todas as classes), a massificação do automóvel, e o grande número de shopping centres espalhados em áreas densamente ocupadas das nossas cidades.

por geisabugs

Curso de SIG aplicado ao planejamento urbano

“Se onde é importante para seu negócio, então Geoprocessamento é sua ferramenta de trabalho” – Gilberto Câmara, INPE

Em outras palavras, sempre que o onde aparece, dentre as questões e problemas que precisam ser resolvidos por um sistema informatizado, haverá uma oportunidade para considerar a adoção de Sistemas de Informação Geográfica (SIG). Por ser considerada a melhor ferramenta para se lidar com qualquer tipo de problema que esteja relacionado ao espaço, é a plataforma essencial mínima para um processo de planejamento efetivo.

SIG podem ser definidos como ambientes computacionais que integram numa única base de dados informações espaciais provenientes de dados cartográficos, dados de censo, de cadastro, imagens de satélite, etc. É usado para coletar, armazenar, manipular, analisar, produzir e disseminar informações geográficas. As principais funções de um SIG são: banco de dados geográfico para  armazenamento e recuperação de informação espacial;  para análise espacial de fenômenos; e  para produção de mapas.

Curso de SIG aplicado ao planejamento urbano – Treinamento com o software gvSIG (software livre)

Ementa: Manipulação de SIG para permitir e facilitar a análise, gestão e representação do espaço urbano e dos fenômenos que nele ocorrem, utilizando procedimentos computacionais. 24 horas/aula, de 26 a 29 de Setembro e 03 e 04 de Outubro de 2011, na Uniritter, Porto Alegre.

Ministrante: Geisa Bugs, Arquiteta, Mestre  em Tecnologias Geoespaciais pela Universidad Jaume I – UJI. A UJI é uma das Instituições da Comunidade Valenciana que desenvolvem o gvSIG.

por geisabugs

Novos princípios do urbanismo – François Ascher

François AscherFrançois Ascher (1946-2009), urbanista e sociólogo ganhador do Grand Prix de l’urbanisme de 2009,  é autor do livro ‘Metápolis’ (1995) e a quem é atribuído a definição do termo.

Em seu livro de 2001 ‘Novos princípios do urbanismo’ trata dos desafios da sociedade onde as conexões vão além dos laços físicos e visíveis e como a maior presença das redes nos obriga a entender a dimensão das cidades de outra forma. É o que chama de neo-urbanismo.

Aqui cito apenas algumas passagens onde o autor refere a importância dos modelos e na qualidade dos dados e informações para melhorias na gestão pública.

“Os profissionais do urbanismo serão levados a introduzir nas suas práticas o uso destes novos modelos de desempenho e a utilizar as potencialidades das TIC (Tecnologias da Informação e Comunicação) nas suas próprias atividades. Os bancos de dados urbanos e os modelos de simulação e visualização a três dimensões abrem, com efeito, possibilidades consideráveis que ‘retroagem’ nos conteúdos dos próprios projetos.” [Da particularização espacial à cidade de todas as redes]

“Isso [impulsionar a gestão procedimental de interesse geral] necessita de competências técnicas, de sistemas de observação e de bases de dados bastante mais elaboradas do que aquelas de que as administrações, com uma atividade que era muito mais ‘normalizada’ e repetitiva, dispunham.” [Da administração à regulação]

A versão de 2010 da editora portuguesa ainda traz do mesmo autor o texto  ‘Novos compromissos urbanos – um léxico’ (2008). No Brasil encontrei somente esta versão para venda.

por fausto